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EDIÇÃO DE TRABALHO | v3.2

Relato autobiográfico

Autobiografia
de Andrei Amaral

Minha história

OUTUBRO DE 2026

Relatos, lembranças e documentos · 2026

ANTES DA LEITURA

Sobre esta edição

Este livro reúne relatos autobiográficos de Andrei Amaral, organizados em primeira pessoa a partir de suas próprias lembranças. É uma edição de trabalho: a narrativa ainda está sendo construída e não apresenta a vida inteira do autor.

As datas aproximadas permanecem identificadas como lembranças. Quando um documento oferece informação diferente, a diferença é registrada sem substituir a memória por uma explicação inventada.

Os capítulos preservam a maneira direta de contar do autor. A cronologia de episódios próximos ainda pode ser ajustada. Documentos pessoais completos integram um acervo separado e não estão disponíveis nesta edição de leitura.

A versão 3.2 mantém o documento "Biografia pessoal Andrei Amaral.docx" e os relatos anteriores, e acrescenta as lembranças do autor sobre o trabalho no distribuidor atacadista e a compra do primeiro carro. Timeline e Fontes aparecem em seções separadas. Os créditos seguem o anexo enviado pelo autor. As diferenças entre as lembranças e os registros documentais permanecem identificadas nas notas de conferência.

CAPÍTULO 01

A virada de chave

Eu tinha 13 para 14 anos quando virou uma chave e eu tomei consciência de vida, foi quando eu realmente entendi que eu estava no mundo. Que eu tinha que me virar, que eu tinha que trabalhar se eu quisesse ser ou ter alguma coisa na vida, ninguém da minha família tinha condição alguma, eu precisava fazer o que fosse preciso, houve uma “virada de chave”.

CAPÍTULO 02

A consulta em Santa Maria

Eu vivi em Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, até os 14 anos. Minha irmã mais velha, Gisele, tem quatro anos a mais que eu e estava terminando o ensino médio. Ela queria fazer faculdade e, naquela época, pensava em cursar Odontologia.

Minha mãe nos criava sozinha e não tinha condições de pagar uma faculdade particular, como a UPF, a Universidade de Passo Fundo, que eu via como uma referência no Rio Grande do Sul. Se me recordo bem, a mensalidade de Odontologia naquela época era de uns dois mil reais.

Minha mãe devia ganhar pouco mais do que isso por mês para sustentar nós três: ela, minha irmã e eu. Não tinha como pagar uma mensalidade daquele valor.

Foi aí que ela tomou o que, até hoje, considero a maior decisão da vida dela de que me lembro: mudar para Santa Maria, no coração do Rio Grande do Sul.

— Vamos nos mudar para Santa Maria. Lá tem uma universidade federal, e sua irmã vai fazer cursinho, estudar e passar no vestibular.

Foi com esse objetivo que nos mudamos. Minha irmã queria estudar, minha mãe procurava uma maneira de tornar aquilo possível, e eu pensava apenas em como ganhar dinheiro, trabalhar e fazer alguma coisa.

Mas confesso que me faltou apoio. Meu apoio e minha base familiar sempre foram a igreja que minha mãe frequentava e para a qual nos levava. Nossa programação e nossa vida eram a igreja.

O melhor dia para mim era o sábado à noite. Depois do culto, a gente sempre ia em grupo a uma pizzaria ou a algum outro lugar para comer alguma coisa. Era meu momento de aproveitar, ou talvez o único.

Aos 14 anos, tomei a iniciativa de procurar um neurologista por conta própria. Eu queria entender se estava tudo bem comigo, se eu era “normal”, se tinha alguma coisa que precisasse de tratamento. Pois cresci com todos sempre falando que eu era agitado, não parava quieto, fiz uma tomografia computadorizada do cérebro como parte daquela busca.

Essa preocupação tinha uma razão: na infância, eu tomava Ritalina ou outros medicamentos para ir à escola, para não ficar tão “agitado”! Eu queria entender se ainda precisava de algum remédio, se havia alguma coisa que pudesse me afetar.

Eu me lembro de estar, conversando sozinho com o médico no Rio Grande do Sul. Ele me disse que eu não tinha nenhum problema, que era agitado e talvez precisasse me acalmar, mas que não havia nada no exame ou pelo diagnóstico dele que fosse me afetar.

Para mim, aquela conversa ganhou um significado particular. Foi como se eu tivesse recebido uma autorização: “Posso viver a minha vida! Posso seguir do meu jeito”. Eu me senti “normal” do meu jeito. É um pouco curioso colocar isso em palavras agora, mas foi assim que eu me senti.

Eu já tinha contado essa história antes, mas nunca com esse grau de intensidade. Nunca tinha explicado tão claramente o que aquela conversa representou para mim.

E até hoje sempre falo, não me preocupo com a opinião de ninguém! Eu respeito outras opiniões, escuto, mas se não acredito ou não concordo falo claramente. Sempre deixei minhas opiniões e visão clara para todos que conviveram ou convivem comigo.

Nota de conferência editorial

A introdução sobre a mãe, Gisele, Passo Fundo, a mudança para Santa Maria e a vida na igreja foi preservada da versão 0.2. Os valores da mensalidade e da renda materna são lembranças aproximadas. A data exata da mudança e o resultado do vestibular não foram informados. A fala da mãe é reproduzida conforme a lembrança do autor. O anexo "Biografia pessoal Andrei Amaral.docx" informa 14 anos na consulta; o relato anterior situava a busca entre 14 e 15 anos e a conversa aos 15. O texto desta edição segue o anexo, sem tratar a idade como confirmada por prontuário. O episódio é uma lembrança pessoal, não uma transcrição médica nem uma conclusão clínica atual. A ordem da consulta em relação aos primeiros trabalhos permanece a confirmar.

CAPÍTULO 03

Meu primeiro trabalho: vendendo livros aos 14 anos

Aos 14 anos, depois daquela virada de chave, eu sabia que precisava trabalhar. Meu primeiro trabalho foi como vendedor de livros infantis na rua. Eram coleções com dez livrinhos pequenos, fininhos, que formavam um conjunto.

Descobri a oportunidade lendo o jornal. Havia um anúncio que dizia, basicamente: “Contrata-se vendedor, sem pré-requisitos. Compareça a este endereço, neste horário”. Era só isso. Pelo que estava escrito, qualquer pessoa podia se apresentar. O que importava era conseguir vender.

Fui até o endereço indicado, de manhã. Lembro que havia uma escadaria. Eu subi e cheguei ao lugar onde estavam recebendo as pessoas. Os interessados iam chegando, e a explicação era dada para todo mundo de uma vez.

O funcionamento era simples: cada coleção com dez livros custava dez reais. De cada coleção vendida, dois reais ficavam com o vendedor. A comissão era de 20%.

Nós saíamos com os conjuntos para vender e tínhamos que voltar no fim do dia para fazer o acerto. Não lembro exatamente quantas coleções recebíamos de cada vez — talvez dez ou quinze. Mas lembro muito bem da insistência numa orientação: tinha que voltar. Você levava os livros e precisava retornar para prestar contas e fazer o pagamento.

Antes de sair, havia uma espécie de ritual de motivação. Davam as mãos, gritavam, incentivavam uns aos outros: “Vamos vender! Vamos sair!”. Eu achava aquilo meio doido, mas era assim que começava o dia.

Depois, o pessoal saía para vender. Cada um ia para um bairro, para uma região, batendo de porta em porta.

Eu parei para pensar.

“Cara, não vou fazer dessa forma. Primeiro vou pensar em como posso ser mais eficiente vendendo esses livros.”

Foi aí que tive a ideia de entrar em prédios comerciais. Eu subia de elevador até o último andar e vinha descendo, visitando as salas. Abordava escritórios de advocacia, consultórios médicos, dentistas. Ia de sala em sala oferecendo as coleções.

Em vez de percorrer um bairro inteiro, eu concentrava as visitas dentro de um prédio. Conseguia abordar muito mais pessoas e ser mais efetivo nas vendas. Eu vendia todas as coleções que levava.

Lembro de chegar a ganhar quarenta reais em um dia e pensar: “Cara, ganhei quarenta reais hoje!”. Para mim, naquela época, era um valor significativo.

Hoje, quando olho para trás, enxergo claramente essa escolha. Eu tinha 14 anos e, antes de simplesmente sair fazendo o que todo mundo fazia, parei para pensar em uma maneira diferente de trabalhar. O objetivo era vender mais, ser mais eficiente.

Fiquei um tempo vendendo aqueles livros. Depois, comecei em outro trabalho.

Nota de conferência editorial

O relato menciona dez livros por coleção e comissão de R$ 2 por coleção. R$ 40 de comissão corresponderiam a vinte coleções; a expressão oral “vinte livros” permanece pendente de confirmação. O texto não fixa essa quantidade como fato adicional.

CAPÍTULO 04

Painter

Meu trabalho de pintor durou poucos dias, mas foi suficiente para me render o primeiro apelido da “galera”: Painter.

Eu nem entendi de imediato o que aquilo significava. Demorei um pouco para descobrir que era “pintor”, em inglês. O nome vinha da minha aparência: eu andava de chinelo e bermuda, tudo cheio de pingos de tinta. Os adolescentes dos prédios da Cohab onde eu morava repararam, e o apelido apareceu.

Naquela época, além de vender as coleções de livros infantis, trabalhei na pintura de um condomínio popular que estava sendo entregue. Havia serviço a fazer, e eu fui trabalhar. Foi uma passagem curta, mas, quando conto essa parte da minha vida, lembro tanto do trabalho quanto da tinta que carregava na roupa.

Uma recordação daquela época é a lembrança de Fernando Loureiro, ele era um irmão da igreja que eu frequentava. Era da Aeronáutica e, pelo que me lembro, trabalhava como mecânico de aeronaves. Tinha um bigode grande e ficou na minha memória, junto com a ajuda que ele me deu.

Acho que ele percebeu minha vontade de trabalhar. Eu estava vendendo livros, tinha feito aqueles serviços de pintura, procurando um jeito de ganhar meu dinheiro. Talvez ele tenha olhado para aquilo e pensado que poderia me ajudar a encontrar um emprego melhor. Não sei exatamente o que passou pela cabeça dele, mas é assim que entendo sua atitude hoje.

Foi Fernando quem conseguiu para mim um estágio em uma loja de informática que também tinha assistência técnica de computadores.

Passei a ser o estagiário do técnico de informática. Formatava computadores, trocava placas, processadores, memória. Eu fazia de tudo um pouco ali. Era um trabalho diferente de abordar pessoas para oferecer livros ou de pintar um condomínio: agora, eu lidava com as máquinas e seus componentes, e tudo sem internet.

Quando penso, aquela oportunidade não veio de um anúncio de jornal, como a venda dos livros. Veio de alguém que me conhecia e resolveu ajudar.

Trabalhei alguns meses na assistência técnica. Depois, voltei a vender.

Dessa vez, cosméticos, meu primeiro emprego de carteira assinada aos 15 anos.

Nota de conferência editorial

Este capítulo incorpora o texto do anexo, inclusive a lembrança de primeiro emprego com carteira assinada aos 15 anos. A carteira apresentada registra a admissão com Jader Magalhães em 02/12/2002, quando o autor tinha 16 anos. A divergência foi mantida visível; não se presumiu trabalho anterior sem registro, erro do documento ou outra explicação. A expressão "tudo sem internet" foi preservada como descrição da experiência narrada. Nome da loja, datas e duração exata do estágio continuam a confirmar.

CAPÍTULO 05

Meu primeiro emprego com carteira assinada

Meu primeiro emprego com carteira assinada foi como promotor de vendas de cosméticos dentro de uma farmácia. Eu fazia análise capilar e, a partir daquele atendimento, oferecia os produtos.

O registro na minha carteira de trabalho é de 2 de dezembro de 2002. Eu tinha 16 anos.

Essa oportunidade também veio de um irmão da igreja, o Jader Magalhães. Ele tinha vindo de Minas Gerais para trabalhar com a representação da Bio Extratus. Foi ele quem me deu meu primeiro emprego com carteira assinada.

Eu trabalhava de camisa branca, todo arrumado. Tinha um pequeno equipamento, parecido com um microscópio, e uma lâmina de vidro onde colocava um fio de cabelo. Fechava a lâmina, com o fio preso ali, e colocava dentro da máquina. A imagem aparecia em uma tela.

Recebi um treinamento para aprender como aquilo funcionava. Explicavam sobre a raiz do cabelo, os tipos de cabelo e as classificações que usávamos, como oleoso e seco. Ao lado do equipamento, havia uma espécie de gabarito, com imagens das raízes e seus diferentes tipos, que serviam de referência. Eu também tinha um receituário.

Dentro da farmácia, eu abordava as pessoas assim:

— Olá, você gostaria de fazer uma análise capilar?

Antes mesmo de a pessoa responder, eu já completava:

— É de graça. Não precisa pagar, é de graça.

Eu não esperava a pessoa dizer não. E, antes mesmo de ela perguntar como funcionava, já começava a explicar:

— Funciona assim: eu vou tirar um fio de cabelo do seu couro cabeludo, colocar nessa lâmina, e a gente vai ver a imagem nesse equipamento. Ele vai mostrar a raiz do seu cabelo para a gente analisar.

As pessoas aceitavam, eu retirava o fio, colocava na lâmina e mostrava a imagem. A partir dali, começava uma conversa mais detalhada.

Eu perguntava qual era o tipo de cabelo da pessoa, qual shampoo ela usava, como lavava o cabelo. Era toda uma investigação para entender os hábitos dela e indicar os cosméticos da empresa para a qual eu trabalhava.

Depois da análise e das perguntas, eu apresentava os produtos:

— Então, esse aqui é o shampoo, e esses são os produtos mais indicados para o seu tipo de cabelo.

E fazia a venda.

Lembro bem da embalagem dos produtos naquela época. Era amarela, com uma aparência antiga, e eu achava feia. Para mim, era uma embalagem horrível.

Também lembro do preço: um shampoo custava R$ 16,90. Dezesseis reais e noventa centavos, naquela época. Eu considerava muito caro, ainda mais com aquela embalagem.

Mesmo assim, eu vendia uma média de quarenta produtos por dia.

Até hoje, quando penso nisso, não consigo entender direito como conseguia vender tanto. Eu fazia a análise capilar, conversava com a pessoa, explicava e indicava os produtos. E as vendas aconteciam.

Nota de conferência editorial

D01/D03 registram Jader Magalhães como empregador em Santa Maria/RS e o cargo de promotor de vendas, de 02/12/2002 a 04/07/2003. A ligação com a Bio Extratus e a atuação na farmácia vêm do relato. A lembrança inicial de 15 anos não fixa um início anterior: a data comprovada é a admissão formal. A “análise capilar” é descrita como atividade comercial da época, não como diagnóstico médico validado. O anexo de revisão mantém a lembrança de início aos 15 anos, reproduzida no capítulo Painter; neste capítulo, a idade de 16 anos acompanha a data de admissão registrada na CTPS. A divergência permanece aberta.

CAPÍTULO 06

Meu primeiro veículo: uma Biz verde

Enquanto ainda trabalhava com os produtos da Bio Extratus, comprei meu primeiro veículo. Era uma Biz verde.

Eu me lembro de ter comprado com 16 anos. Se não me engano, isso foi em 2003.

Na minha lembrança, eu ganhava seiscentos reais por mês. Juntei meu salário durante seis meses e, com aquele dinheiro, comprei a Biz.

Mesmo sendo menor de idade, o veículo ficou registrado no meu nome, no meu CPF.

Lembro que, quando comprei, subi na Biz e não sabia pilotar. Eu tinha comprado a moto, mas ainda não sabia andar com ela.

Saí com ela e passei a tarde toda andando e aprendendo. Foi naquela tarde que aprendi a pilotar.

Nota de conferência editorial

Idade, data da compra e renda ainda precisam ser conciliadas. A remuneração mensal de admissão no primeiro contrato é lida como R$ 296,38, e não R$ 600; o documento não permite concluir qual era a renda total recebida. Se os seis meses de economia começassem na admissão de dezembro de 2002, a compra ocorreria por volta de junho de 2003, já aos 17 anos. Isso é uma conferência cronológica, não a data comprovada da compra. A placa relatada permanece no acervo privado. O relato de pilotagem não constitui recomendação de conduta.

CAPÍTULO 07

Vendedor de um distribuidor aos 16 anos

Eu tinha 16 anos quando, mais uma vez, recebi a ajuda de um irmão da igreja. Desta vez foi o Nilton Medeiros. Ele me indicou para ser vendedor de um distribuidor atacadista.

O catálogo tinha alimentos, doces, pilhas, tudo que um minimercado, um bar e outros estabelecimentos podiam revender. Era um catálogo enorme.

Fiz a entrevista com o supervisor da empresa, um senhor chamado Celso. Nunca me esqueço daquela cena: eu, no auge dos meus 16 anos, de terno, fazendo uma entrevista no estacionamento de um mercadinho. Minha Biz verde estava ali perto. Hoje acho muito engraçado lembrar disso.

No dia seguinte, ele me ligou e disse que eu estava contratado, que podia enviar os documentos para o RH da empresa. Enviei de imediato.

Depois da análise do RH, ele voltou a me ligar e perguntou exatamente assim:

— Piá, você é de menor?

— Sim! Mas quero trabalhar e vou vender.

Mesmo assim, ele me contratou. Na minha lembrança, foi uma decisão de coragem dele, de assumir os riscos e dar uma oportunidade a um adolescente de 16 anos. Eu ia atender os estabelecimentos como vendedor externo, andando de moto, ainda sem carteira de motorista.

Só depois de algum tempo fiquei sabendo que não parava vendedor naquele setor, que era a minha cidade, Passo Fundo. Vários já tinham passado por ali.

Meu trabalho era com um fax, um bloco de pedidos e um catálogo. Não usávamos celulares nem computadores. Era isso que a empresa tinha me dado. Os pedidos eram feitos à mão, e eu usava o fax para transmiti-los.

Todo sábado pela manhã, a empresa enviava por fax um adendo. Vinham os comunicados, as promoções, os lembretes para a próxima semana, os acontecimentos. Era uma comunicação para todos os representantes.

No meio das muitas páginas do adendo da minha primeira semana de trabalho, apareceu uma parte que nunca esqueci:

“E esta semana iniciou um vendedor novo em Passo Fundo, Andrei, que já iniciou decolando... Bateu recorde de número de pedidos de toda a empresa. Desejamos sucesso e boas-vindas.”

Eu tinha acabado de chegar. E, nos pouco mais de dois anos que lembro de ter ficado na empresa, nunca vi um comentário assim, falando especificamente de um vendedor. Mas, na minha primeira semana, falaram de mim.

É importante explicar: eu não fui o vendedor que mais vendeu em valor. Fui o que tirou o maior número de pedidos.

Eu entrava com meu catálogo e meu bloco em qualquer porta comercial aberta onde achasse que alguém podia comprar alguma coisa. Bodegas, mercadinhos, bares, restaurantes. Se tinha uma porta aberta e alguma possibilidade de venda, eu entrava.

Abri centenas de novos clientes. Enviava fichas e fichas de cadastro. Muitas não eram aprovadas por questão de crédito, mas, nesses casos, vendíamos à vista.

Era assim que eu trabalhava: minha Biz verde, o catálogo, o bloco e uma porta depois da outra. Foi nesse trabalho que juntei o dinheiro para comprar o meu primeiro carro.

Nota de conferência editorial

Este capítulo se baseia no novo relato do autor. A idade de 16 anos, a atuação em Passo Fundo, a duração de pouco mais de dois anos, os nomes de Nilton Medeiros e Celso e o comunicado sobre o número de pedidos são lembranças pessoais. Nome da distribuidora, datas de contratação e saída e sua relação com os contratos já documentados permanecem a confirmar. A fala de Celso e o texto do adendo são reproduzidos conforme a memória do autor, sem documento ou gravação apresentado nesta etapa. O recorde relatado é de quantidade de pedidos, não de faturamento.

CAPÍTULO 08

Meu primeiro carro: um Golf GLX branco

Meu sonho era um Golf. Um Golf GLX branco, com banco de couro, completo.

Eu ganhava mil reais por mês naquele trabalho e lembro de ter juntado dinheiro durante 18 meses, um ano e meio, para comprar o carro. Juntava tudo o que ganhava. Meu objetivo era chegar aos 18 mil reais e pagar à vista.

Naquele período, eu gastava o mínimo possível. Não comia nem um X na esquina, como eu costumava falar. Um X, aquele lanche gaúcho tradicional. Comia em casa, não saía, não fazia festa, não ia a restaurantes. Gastava apenas o necessário com o combustível da Biz, que consumia poucos reais na época.

Eu ia para casa almoçar e depois saía de novo para trabalhar. Tinha 16, 17 anos. Ia de Biz, com a pasta atravessada, carregando o catálogo do distribuidor e o bloco de pedidos.

Meus amigos eram todos adolescentes, mais ou menos da mesma idade: 15, 16, 17 anos. A galera tinha voltado da escola e ficava ali. Quando me viam saindo, perguntavam:

— Ah, o que você vai fazer?

— Tô saindo, tô voltando a trabalhar à tarde agora.

— Não, pra que você quer trabalhar? Vamos ficar aqui jogando futebol, jogando carta, jogando alguma coisa.

— Não, não, preciso trabalhar.

Lembro dos invernos em que eu saía com uma jaqueta de couro marrom, sempre de roupa social para atender os clientes. Eles insistiam para eu ficar, e eu insistia que precisava trabalhar.

— Mas trabalhar pra quê?

— Vou comprar um carro. Vou comprar meu carro.

— Que carro você vai comprar?

— Vou comprar um Golf.

— Cala a boca, piá, saindo o dia inteiro de Biz aí, onde você vai comprar um Golf?

Aquilo me motivava. Eu ficava com raiva e respondia naquele tom, quase apontando o dedo:

— Eu vou comprar só pra dar na tua cara.

Lembro dessa frase. Era a maneira que eu tinha de dizer que ia conseguir.

Ainda aos 17 anos, perto de completar 18, no início do ano, eu juntei o dinheiro e fui comprar o carro. Meu aniversário é em março.

Gostei daquele Golf branco e falei para o vendedor:

— Ah, gostei do carro, vou ficar com o Golf.

Ele olhou para mim e respondeu:

— O quê? Se você tem o dinheiro, traz aqui.

Na hora, não entendi. Achei estranho.

— Mas o senhor não quer que eu faça uma transferência?

— Não, não. Se você tem o dinheiro mesmo, pode trazer aqui.

Peguei a Biz e fui até o Banco do Brasil, no centro da cidade. Estacionei, fui ao caixa com minha identidade e pedi para resgatar todo o saldo da minha conta: 18 mil reais.

Eu tinha 17 anos. O dinheiro estava na minha conta, no meu CPF. Lembro que o caixa me entregou um envelope de papel pardo, com a logo do Banco do Brasil em cima e os 18 mil reais dentro.

Peguei o envelope, abri o baú da Biz, coloquei o dinheiro no espaço onde guardava o capacete e voltei até o vendedor.

Algumas horas depois daquela primeira conversa, cheguei com o dinheiro, entreguei e falei para irmos ao cartório assinar o documento. Fomos e voltamos. Até aquele momento, eu ainda não tinha andado no carro.

Eu não sabia dirigir direito. Algumas pessoas já tinham me ensinado um pouco, mas eu não sabia mesmo. Saí com o Golf deixando o motor apagar algumas vezes, falhando, até aprender.

Quando cheguei em casa com o carro, minha mãe perguntou:

— Da onde esse carro, piá?

E eu respondi:

— Eu falei que eu ia comprar essa porra.

Havia uma raiva naquela resposta. Era meu jeito de expressar que tinha conseguido. Depois de tanto sair de Biz, trabalhar e ouvir os amigos duvidarem, eu estava ali com o carro que dizia que ia comprar.

Eu tinha passado aquele tempo sem sair, sem fazer festa, sem gastar com um lanche. Não era por vergonha de ir a pé. Eu queria juntar o dinheiro, ter meu carro e completar os 18 anos.

Quando conto essa história, sempre falo a mesma coisa: a partir dali eu comecei a viver.

Nota de conferência editorial

Idade, valor, modelo do carro, período de economia, renda e cenas da compra vêm do novo relato. O autor lembra a compra aos 17 anos, perto de completar 18, e situa o episódio entre janeiro e fevereiro, com aniversário em março. O mês exato e a sequência dos 18 meses de economia ainda precisam ser conferidos; não foi fixado um ano nem criada uma conciliação com os relatos e documentos anteriores. A referência a juntar toda a renda e a gastar o mínimo com combustível foi mantida como lembrança, sem cálculo adicional de despesas. Não foram apresentados nesta etapa comprovantes bancários, documento do veículo ou recibo da compra. As falas são reproduzidas conforme a lembrança do autor.

LINHA DO TEMPO

Timeline

Um panorama dos marcos já relatados e dos registros disponíveis. As idades aproximadas e as datas documentadas aparecem com sua origem; a ordem de episódios próximos ainda pode ser ajustada.

  1. 1986

    Nascimento em Passo Fundo/RS.

    Documentado · D08
  2. 13–14 anos, aproximadamente

    A virada de chave: a decisão de trabalhar e buscar o próprio caminho.

    Relato
  3. Até os 14 anos

    Vida em Passo Fundo e mudança com a mãe e Gisele para Santa Maria, para viabilizar os estudos da irmã. Data da mudança e resultado do vestibular ainda não informados.

    Relato · R07
  4. Aos 14 anos

    Venda de coleções de livros infantis. Visitas a salas de prédios comerciais para aproveitar melhor o dia de trabalho.

    Relato
  5. Adolescência · idade a confirmar

    Consulta neurológica. O anexo informa 14 anos; os relatos anteriores mencionavam 14–15 anos e a conversa aos 15.

    Relato · D09
  6. Adolescência · sem data exata

    Pintura do condomínio, apelido Painter e estágio em informática por indicação de Fernando Loureiro.

    Relato
  7. 4 de abril de 2001

    Emissão da carteira de trabalho em Santa Maria. Esta é a data de emissão, não uma admissão.

    Documentado · D08
  8. 2 de dezembro de 2002 a 4 de julho de 2003

    Promotor de vendas com Jader Magalhães, em Santa Maria/RS. A relação com a Bio Extratus e o trabalho na farmácia vêm do relato.

    Documentado · D01/D03; relato
  9. Por volta de 2003

    Compra da Biz verde, com dinheiro economizado no trabalho. Idade e data da compra permanecem a confirmar.

    Relato
  10. Aos 16 anos, segundo a lembrança

    Indicação de Nilton Medeiros, entrevista com Celso e início como vendedor externo de um distribuidor atacadista em Passo Fundo. Empresa e data exata ainda a confirmar.

    Relato · R08
  11. Primeira semana no distribuidor

    O adendo enviado por fax anuncia o recorde de número de pedidos de toda a empresa. O destaque foi a quantidade de pedidos, não o maior valor de vendas.

    Relato · R08
  12. Aos 17 anos · início do ano, perto dos 18

    Compra do primeiro carro: um Golf GLX branco, por R$ 18 mil à vista, após cerca de 18 meses economizando. Mês e ano da compra permanecem a confirmar.

    Relato · R08
  13. 1º de novembro de 2003 a julho de 2006

    Gilberto Weber & Cia. Ltda., vendedor viajante. O dia da saída está encoberto pela assinatura. A relação deste contrato com o distribuidor do novo relato ainda precisa ser confirmada.

    Documentado · D02
  14. 1º de agosto de 2006

    Admissão na EMS S/A como vendedor.

    Documentado · D04/D06
  15. 20 de junho de 2008

    Alteração de cargo para supervisor de vendas na EMS.

    Documentado · D05
  16. 23 de janeiro de 2011

    Saída da EMS, conforme anotação manuscrita apresentada.

    Documentado · D04/D06
CADERNO FINAL

Fontes

Relato: lembrança pessoal do autor. Documentado: informação legível nas fotos da carteira de trabalho apresentadas. A confirmar: informação divergente ou incompleta. Fotografias de documentos dão suporte aos registros mostrados, mas não são perícia de autenticidade nem comprovam episódios não registrados.

Relatos do autor nas conversas que deram origem a esta autobiografia. R07 identifica o relato sobre a mãe, Gisele, Passo Fundo, a mudança para Santa Maria e a vida na igreja.

R08: relato do autor acrescentado à edição v3.2, sobre Nilton Medeiros, a entrevista com Celso, o trabalho no distribuidor atacadista, o recorde de número de pedidos e a compra do Golf GLX branco. Nome da empresa, datas e a relação com o contrato D02 permanecem a confirmar.

Oito fotografias da carteira de trabalho, correspondentes a seis conjuntos documentais, incluindo tomadas repetidas. D01 e D03: primeiro contrato. D02: segundo contrato. D04 e D06: contrato EMS. D05: atualizações EMS. D07: identificação da carteira. D08: qualificação civil.

D09: documento de revisão "Biografia pessoal Andrei Amaral.docx", enviado pelo autor, com créditos a Mariana Siqueira e Hugo Theon. Esta fonte amplia os primeiros episódios e mantém algumas idades diferentes dos registros e relatos anteriores.

Os documentos originais e o anexo integral permanecem em acervo separado. Não estão hospedados nesta edição de leitura.

CADERNO FINAL

Histórias que ainda serão contadas

O trabalho no distribuidor atacadista e a compra do Golf já entram nesta edição a partir do relato do autor. A identificação da empresa e a relação desse período com o contrato da Gilberto Weber & Cia. Ltda. ainda serão aprofundadas. A trajetória na EMS, incluindo a promoção de 2008, aparece nos documentos e aguarda o relato autobiográfico.

A estrutura está aberta à continuidade, conforme os próximos relatos do autor: infância e família; a experiência como vendedor viajante; a trajetória na indústria farmacêutica; a passagem para o empreendedorismo; vida pessoal e família; empresas, projetos e aprendizados posteriores.

Estes são espaços editoriais propostos, não afirmações de conteúdo já escrito.

CADERNO FINAL

Créditos e edição

Relato autobiográfico de Andrei Amaral.

Autor: Andrei Dal Canton do Amaral.

Redação e organização: Mariana Siqueira e Hugo Theon.

Revisão de texto: Mariana Siqueira e Hugo Theon.

Os créditos de redação, organização e revisão foram reproduzidos conforme o documento enviado pelo autor.

Integração do manuscrito e atualização do HTML: com assistência de inteligência artificial.

Aprovação final desta edição de trabalho pelo autor: pendente.

Título: Autobiografia de Andrei Amaral. Subtítulo: Minha história. Versão de trabalho 3.2, outubro de 2026.

Prefácio, dedicatória e agradecimentos: reservados para decisão do autor. Não foram atribuídos esses textos a terceiros.

Nenhuma editora, ISBN, ficha catalográfica ou registro autoral foi contratado ou emitido nesta etapa.

O arquivo de leitura não contém os documentos pessoais originais. Em uma publicação aberta, qualquer pessoa com acesso ao link poderá ler o conteúdo. A marcação noindex não é proteção de acesso.